Um levantamento do Mercado Azul em três centrais de abastecimento — CEASA-SP, CEASA-MG em Contagem e CEASA-PE em Recife — mostra movimentos opostos nos preços de tilápia e camarão no atacado na primeira semana de junho. A tilápia fresca recuou cerca de 6% em relação a maio; o camarão de cultivo subiu 9% no mesmo período.
O atacado é o termômetro mais confiável do mercado de pescado no Brasil. É onde restaurantes, peixarias, supermercados de bairro e ambulantes compram carga — geralmente de madrugada, à vista ou com prazo curto. O preço formado na CEASA de hoje chega ao consumidor final em 24 a 48 horas, com margem do intermediário e do varejista.
Tilápia: oferta pressiona o preço
A tilápia inteira fresca, tamanho médio (800g a 1,2 kg), foi negociada a R$ 11,80 o quilo na CEASA-SP na semana de 2 a 6 de junho — queda de 6,3% em relação à média de maio. Em Contagem, o preço ficou em R$ 12,40; em Recife, R$ 13,10 — variação regional que reflete custo de frete e perfil de demanda.
Produtores do Paraná e de Mato Grosso do Sul estão em pico de desova — período em que o peixe atinge peso comercial e os tanques precisam ser esvaziados para nova entrada de alevinos. A oferta abundante pressiona o preço para baixo. Compradores de atacado aproveitam para estocar em câmaras frias, mas a capacidade de armazenamento é limitada — o excesso de peixe precisa ser vendido em poucos dias.
File de tilápia, produto com maior valor agregado, manteve preço mais estável: R$ 28,50 o quilo na CEASA-SP, com variação de menos de 2% no mês. A demanda de restaurantes e de peixarias que não filetam internamente sustenta o valor.
Camarão: ração cara e oferta ajustada
O camarão de cultivo, tamanho médio (60/80 unidades por quilo), subiu de R$ 38,90 para R$ 42,40 o quilo na CEASA-SP — alta de 9%. Em Recife, polo produtor, o preço partiu de base menor (R$ 35,20) e chegou a R$ 38,80. Em Belo Horizonte, a alta foi de 7%.
Dois fatores explicam o movimento. Primeiro, o custo da ração para camarão subiu 18% nos últimos 12 meses — ingredientes como farinha de peixe e soja estão mais caros, e o dólar encareceu insumos importados. Produtores que não repassaram o custo no ano passado ajustaram oferta, reduzindo densidade de cultivo em alguns viveiros.
Segundo, a demanda de food service — restaurantes, buffets, hotéis — voltou a crescer no segundo trimestre, depois de trimestre fraco no início do ano. Com menos camarão disponível e mais compradores, o preço subiu. Exportadores também disputam a mesma matéria-prima: quando o dólar favorece, parte do camarão que iria para a CEASA é desviada para o porto.
Outras espécies
A sardinha fresca, típica do litoral do Nordeste, manteve preço estável em Recife (R$ 7,50 o quilo) e subiu levemente em São Paulo (R$ 9,20), onde depende de transporte refrigerado de longa distância. O bagre de cativeiro, alternativa econômica à tilápia, subiu 4% em todas as praças — reflexo de menor oferta de produtores que migraram tanques para tilápia.
Peixes de águas salgadas — badejo, garoupa, robalo — tiveram comportamento misto. Robalo fresco subiu 5% em Recife por restrição de pesca em período de defeso em algumas regiões. Badejo congelado, importado, manteve preço estável.
Do atacado ao varejo: a margem do intermediário
O consumidor final raramente vê a queda de 6% na tilápia refletida no preço da peixaria do bairro. Entre a CEASA e o balcão, há margem do atacadista (10% a 15%), do transportador refrigerado, do peixeiro que limpa e expõe o produto — e, em muitos casos, perda por deterioração. Uma queda no atacado pode significar apenas que o varejo parou de subir, não que barateou.
Supermercados com compra centralizada negociam preço direto com produtores e frigoríficos, muitas vezes fora da CEASA. Por isso, o preço da gôndola pode divergir do atacado — para cima ou para baixo, dependendo do contrato e do volume.
O que esperar para julho
Produtores de tilápia projetam manutenção da oferta elevada até meados de julho, o que deve manter pressão baixista no preço. Camarão tende a seguir em alta enquanto o custo da ração não recuar e a exportação disputar matéria-prima. Sardinha entra em período de maior captura no Nordeste — possível queda de preço em Recife e estabilidade no Sudeste.
Para quem compra no atacado, a recomendação é a mesma de sempre: variar espécies conforme a oscilação, negociar volume em dias de oferta abundante e manter cadeia fria rigorosa — peixe barato que perde temperatura sai caro.