Unidades de processamento de pescado em Santa Catarina, Ceará e Bahia anunciaram ampliação de linhas de produção no primeiro semestre de 2026. A aposta é em filetagem automatizada e embalagem a vácuo — mas a conta de energia elétrica e a dificuldade de contratar operadores qualificados ameaçam o retorno dos investimentos.
O Brasil possui cerca de 180 estabelecimentos registrados para beneficiamento de pescado e aquicultura, segundo cadastro do Ministério da Pesca. A maioria está no litoral — proximidade com portos, fornecedores de matéria-prima e mão de obra com tradição no setor explicam a concentração. Nos últimos dois anos, pelo menos 12 unidades anunciaram expansão de capacidade ou modernização de equipamentos.
Investimento em automação
A filetagem manual — cortar, limpar e embalar peixe — é uma das etapas mais dependentes de mão de obra e mais sujeitas a variação de qualidade. Frigoríficos de médio e grande porte estão substituindo linhas manuais por máquinas de corte por ultrassom e esteiras de seleção por peso e tamanho.
Uma unidade em Itajaí (SC) instalou linha automatizada com capacidade de 8 toneladas por hora de tilápia em filete. O investimento, de cerca de R$ 12 milhões, deve se pagar em cinco anos — se a energia não subir mais e se houver demanda estável. O diretor industrial da empresa diz que a automação reduziu o quadro de funcionários na linha de corte em 40%, mas exigiu requalificação dos que permaneceram para operar e manter os equipamentos.
No Ceará, polo nacional do camarão de cultivo, frigoríficos investem em túneis de congelamento rápido (IQF) e em embaladoras que selam bandejas com atmosfera modificada — tecnologia que estende a validade do produto fresco e abre mercados mais exigentes.
Energia elétrica: o custo invisível
Frigorífico de pescado é, antes de tudo, um consumidor intensivo de energia. Câmaras frias, túneis de congelamento, esteiras refrigeradas e sistemas de climatização operam 24 horas. A tarifa de energia elétrica no Brasil subiu acumuladamente mais de 25% nos últimos três anos — e o setor industrial, classificado na tarifa horária, paga as bandeiras vermelhas sem poder escolher quando ligar a câmara fria.
Gestores consultados pelo Mercado Azul relatam que a energia representa entre 12% e 18% do custo operacional de um frigorífico de pescado. Algumas unidades instalaram painéis solares no telhado para reduzir a conta, mas o investimento inicial é alto e a geração fotovoltaica não cobre o pico noturno de consumo das câmaras.
A alternativa de geradores a diesel existe para emergências, mas o custo por kWh é ainda maior. Cooperativas menores, sem escala para negociar tarifa especial, são as mais afetadas — e algumas reduziram turnos de produção nos meses de bandeira vermelha patamar dois.
Mão de obra: difícil de encontrar, difícil de reter
Operar em ambiente refrigerado, manusear facas industriais, cumprir normas sanitárias rigorosas e trabalhar em pé por oito horas não é emprego para qualquer pessoa. Frigoríficos do litoral relatam rotatividade de 60% a 80% ao ano em funções operacionais — e dificuldade crescente para atrair jovens.
A pandemia acelerou a migração de trabalhadores para entregas por aplicativo e para o setor de serviços em cidades turísticas. Quem ficou no frigorífico exige salário maior e condições melhores. Empresas que oferecem transporte, refeição e plano de carreira retêm mais gente; as que competem apenas por salário mínimo perdem funcionários a cada safra.
A qualificação é outro problema. Operar máquinas automatizadas exige treinamento que poucas escolas técnicas do litoral oferecem. Frigoríficos criaram programas internos de capacitação, mas o investimento em educação não aparece no balanço de curto prazo — e diretores financeiros questionam o retorno.
Cadeia fria: da doca ao caminhão
Processar bem o peixe não adianta se a temperatura se perde na saída do frigorífico. Unidades modernas investem em docas climatizadas e em monitoramento por sensores em cada pallet. O gargalo, porém, está no transporte: caminhões frigoríficos antigos, motoristas sem treinamento em carga perecível e tempo de espera em portos e CEASAs comprometem a qualidade.
Auditorias de cadeia fria realizadas por associações do setor mostram que a quebra de temperatura ocorre mais frequentemente entre o frigorífico e o atacado do que dentro da unidade industrial. Frigoríficos que vendem direto para exportação controlam melhor a cadeia; os que vendem para distribuidores regionais dependem da logística de terceiros.
Perspectivas
A demanda interna e externa por pescado processado continua crescendo. Frigoríficos com escala, tecnologia e gestão de energia estão bem posicionados. Os de menor porte enfrentam a escolha: investir e correr risco, ou manter operação enxuta e perder mercado para quem automatizou.
O setor pede ao governo tarifa de energia diferenciada para cadeias alimentares — argumento semelhante ao do setor de carnes. Enquanto isso não acontece, cada grau a menos na câmara fria e cada kWh economizado fazem diferença no resultado do mês.