Os embarques de pescado brasileiro para o exterior cresceram cerca de 12% em volume no primeiro semestre de 2026, segundo dados preliminares do comércio exterior. Tilápia, camarão e filetes congelados lideram as vendas — mas quem produz no interior e não tem estrutura portuária própria continua dependendo de uma logística que não acompanhou o ritmo da demanda.
O Brasil exportou mais de 280 mil toneladas de produtos pesqueiros e aquícolas entre janeiro e maio deste ano, com receita estimada em US$ 1,4 bilhão. Os principais destinos permanecem os mesmos de anos anteriores: União Europeia, Estados Unidos, China e países da América Latina. O que mudou foi a composição — tilápia fresca e congelada ganhou participação, enquanto o camarão de cultivo se recuperou após dois anos de ajuste de oferta.
Quem ganha com o crescimento
Grandes integradoras com frigorífico próprio, frota refrigerada e escritório de comércio exterior embarcaram com menos atrito. Empresas do Paraná, Santa Catarina e do Ceará — principais polos de tilápia e camarão — relatam contratos de longo prazo com redes de supermercados europeias e distribuidores norte-americanos.
Para esses players, a certificação sanitária e ambiental deixou de ser diferencial e virou requisito básico. Quem já possui selos de bem-estar animal, rastreabilidade por lote e auditorias periódicas conseguiu antecipar as exigências que entraram em vigor na Europa no início de 2026. Exportadores que ainda operam com documentação irregular ou com lacunas na cadeia fria foram barrados na inspeção — e perderam embarques.
O gargalo logístico
O problema aparece quando o produtor é de médio ou pequeno porte. A tilápia sai de tanques no interior do Paraná ou de Mato Grosso do Sul, viaja centenas de quilômetros até o porto de Santos ou Paranaguá e precisa chegar com temperatura controlada, documentação completa e janela de embarque reservada. Qualquer atraso na estrada, na fila do terminal ou na liberação aduaneira compromete a carga.
Exportadores consultados pelo Mercado Azul relatam filas de até 48 horas para contêineres refrigerados no porto de Santos em maio. A escassez de equipamento reefer — contêiner com sistema de refrigeração — elevou o custo do frete marítimo em 15% a 20% em relação ao ano anterior. Pequenas cooperativas que exportam por meio de trading companies absorvem parte desse custo e, em alguns casos, desistiram de embarques pontuais.
A infraestrutura rodoviária também pesa. Trechos da BR-116 e da BR-376, rotas críticas para escoamento de pescado do Sul e Sudeste, passaram por obras sem sinalização adequada de desvios. Motoristas de carretas frigoríficas relatam quebra de temperatura em paradas prolongadas — risco sanitário que pode inviabilizar toda a carga.
Destinos e oportunidades
A União Europeia respondeu por 38% do valor exportado no período. Tilápia em filete, sem pele e sem espinha, é o carro-chefe — produto que exige processamento industrial e se encaixa no perfil de consumo europeu. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com forte demanda por camarão de cultivo em tamanhos específicos para food service.
A China, tradicional compradora de matéria-prima para reprocessamento, reduziu importações de pescado inteiro congelado e aumentou a compra de produtos com maior valor agregado. Exportadores brasileiros que investiram em filetagem e embalagem individual ganharam espaço. Os que ainda vendem peixe inteiro congelado enfrentam margens menores e maior volatilidade cambial.
Certificação e barreiras sanitárias
Em 2026, a Europa passou a exigir rastreabilidade completa do camarão de cultivo — da larvicultura ao prato. Exportadores brasileiros que já adotavam sistemas de rastreio por lote se adaptaram com ajustes pontuais. Os que não tinham estrutura precisaram investir em software, etiquetagem e auditorias externas — custo que pequenos produtores nem sempre conseguem absorver.
O Ministério da Pesca e Aquicultura manteve diálogo com autoridades sanitárias europeias para evitar embargo generalizado, mas inspeções pontuais em frigoríficos do Nordeste e do Sul resultaram em suspensões temporárias de dois estabelecimentos. As empresas afetadas corrigiram não conformidades e retomaram exportação em prazo de 30 a 60 dias.
O que vem pela frente
Analistas do setor projetam manutenção do crescimento no segundo semestre, condicionada à estabilidade cambial e à melhoria da logística portuária. O governo federal anunciou investimentos em terminais refrigerados em Santos e Itajaí, mas obras têm prazo de conclusão para 2028 — longe de resolver o problema imediato.
Para pequenos exportadores, a saída tem sido a associação em cooperativas de exportação ou o uso de operadores logísticos especializados em perecíveis. A conta fecha quando o volume justifica o custo fixo. Para quem exporta esporadicamente, o mercado interno — atacado e varejo — continua sendo alternativa mais previsível, mesmo com margens menores.
A exportação de pescado brasileiro está em alta, mas o benefício não se distribui de forma uniforme. Quem tem escala, certificação e logística integrada colhe os frutos. Quem produz bem mas não chega ao porto a tempo continua de fora — e essa distância, por enquanto, não está diminuindo.